Feitosa :
E o mortal vai, não apenas como quem caminha, mas como quem se desfaz em cada passo, libertando-se das amarras pútridas dos fios amiotróficos que o mantinham cativo à solidez ilusória da realidade. Vai como um fragmento de consciência que lentamente se desprende do peso da matéria, percebendo, enfim, que aquilo que chamava de mundo era apenas um véu tênue sobre o abismo do indizível. E nesse ir, ele não avança, ele se dissolve. Porque seguir adiante já não é deslocamento, mas transmutação. O tempo deixa de ser linha e vira um eco curvo, um sussurro que retorna sobre si mesmo, corroendo qualquer noção de início ou fim. O mortal vai, e ao ir, abandona os nomes, os rostos, as certezas que antes o ancoravam. Tudo escorre por entre seus dedos como areia cósmica, revelando que nunca houve, de fato, algo sólido a se segurar. A própria identidade se fragmenta, como um espelho antigo que já não suporta refletir uma forma única. Ele se vê múltiplo, disperso, quase inexistente e, paradoxalmente, é aí que mais se aproxima de alguma verdade. Pois existir, no fundo, talvez seja apenas insistir em uma narrativa que o universo jamais se comprometeu a sustentar. E assim, o mortal vai… não rumo a um destino, mas em direção ao colapso das próprias definições de destino. Vai como quem aceita o vazio não como ausência, mas como possibilidade infinita. Como quem entende que o fim não é um ponto, mas um retorno silencioso àquilo que sempre esteve além de qualquer linguagem, um lugar onde ser e não ser já não fazem sentido algum, é?
2026-03-20 01:49:39