olucasaraujo :
Depois do término, você devolveu tudo.
As cartas, os presentes, as pequenas coisas que um dia pareceram carregar um pedaço da nossa vida. Até as flores que eu tinha pedido não chegaram a tempo de serem suas. Acho que, de certa forma, nada chegou a tempo.
As vezes eu olho todas aquelas cartas espalhadas e leio as palavras que escrevemos um para o outro. É estranho. Me causa uma espécie de despersonalização, como se eu estivesse lendo a vida de duas pessoas que nunca fui eu e você. É familiarmente errado. Estranhamente liminar. Como entrar numa casa antiga onde tudo ainda parece igual, mas nenhuma alma mora mais lá.
E, honestamente, acho que a parte mais difícil foi perceber que a pessoa que eu amei já não existe mais. Não porque tenha desaparecido, e sim porque a pessoa que amei ficou perdida em alguma versão antiga de nós. Mesmo assim, desde o término, eu escrevo uma carta todo santo dia para alguém que não vai voltar mais. E talvez seja essa a definição mais silenciosa da saudade, continuar conversando com ecos.
Agora tenho que cuidar dos girassóis. Engraçado pensar nisso. Porque, querendo ou não, eles foram a única coisa viva que restou de alguém e para alguém. Enquanto todo o resto virou memória, papel ou ausência, eles continuam aqui, precisando de água, de luz, de cuidado. Como se carregassem a responsabilidade de existir por tudo aquilo que não conseguiu permanecer.
As vezes penso que amar é como cuidar de um jardim abandonado, você sabe que ninguém vai voltar, mas ainda assim rega as flores.
E essa, foi a carta de número 50.
2026-05-22 03:05:47