kauã groth :
literalmente o roteiro do vídeo de cima:
Depressão silenciosa
Tem gente que sorri com gente que sorri, como quem coloca cortina em casa em chamas. O café continua quente, o bom dia sai automático, as contas chegam, o ônibus passa, a vida inteira funcionando como máquina de supermercado às três da tarde. Mas dentro, dentro mora um quarto sem janela, um relógio pingando ferrugem, um silêncio tão pesado que até respirar parece levantar concreto.
A depressão silenciosa, ela não grita, ela prende. Quieta, de estar bem com a voz limpa, enquanto afoga tempestade no bolso de casaco. E a pior fome não é de comida, é de colo, de alguém perguntando: "o que aconteceu comigo?" e ficando tempo suficiente para ouvir a resposta inteira.
Então, a carência vira farol quebrado. Qualquer abraço parece destino, qualquer "eu gosto de você" vira água no deserto. E a pessoa entra em amores como quem entra em um táxi fugindo da chuva, sem perguntar pra onde vai, aceitando migalha, achando que é banquete, confunde presença com cuidado, beija tentando tapar o buraco que mora atrás do peito.
Mas existe uma dor específica em dormir ao lado de alguém e continuar sozinho, porque tem relações que não são casas, são curativos molhados. Ninguém percebe que, por trás das fotos, das conversas até de madrugada, dos "te amos" apressados, existe alguém só querendo não desmoronar sozinho no escuro, aonde ninguém vê.
Talvez seja isso. Às vezes, a gente não procura um namoro, procura testemunha, alguém que veja o caos interno e não vá embora quando a maquiagem da alma escorrer.
2026-07-12 15:34:39