No campo, o tempo não corre. Ele repousa.
Assenta-se à margem do rio como o velho pescador,
de chapéu gasto e silêncio por isca.
Dizem os sábios do século passado que a vida rural
é a última moral que nos restou:
a terra que dá pão, a água que dá mistério.
E é nas águas mansas que nascem as maiores quimeras.
Porque o homem do campo, entre o trabalho e a espera,
aprende a pescar o que não se vê.
Lança a rede ao entardecer e não busca apenas peixe.
Busca a maior das piranhas.
Seria tolice? Talvez.
Mas é tolice necessária.
Pois pescar sereias é o nome antigo que damos
ao desejo de crer que, por trás do cotidiano e da enxada,
ainda habita encanto no mundo.
E quando a linha estremece,
não importa se fisgamos sereias sem cauda ou ilusão.
Importa que, por um instante,
o campo inteiro voltou a ser mito.
2026-07-16 13:24:02
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