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Tradição inventada: quando uma prática recente se veste de antiga pra emprestar a autoridade do passado. É o caso da chamada masculinidade tradicional que as Conserva Dias de Melo Rego dizem defender.  O homem de salto alto nasceu na cavalaria persa, onde travava a bota no estribo e entrou na moda europeia depois de 1599, quando o xá da Pérsia mandou embaixadores ao Ocidente. Virou símbolo de poder guerreiro, portanto quanto mais alto o salto, mais alto o homem na hierarquia. Luís XIV além dos saltos decorados com cenas de batalha e lançou a moda das perucas quando começou a perder cabelo aos 17 anos. Esse Homem com H maiusculo usava pó branco no rosto, rouge na bochecha e no lábio. Além disso, rei que chorava em público era rei virtuoso: bispos medievais como Gregório de Tours tratavam as lágrimas do soberano como prova de aptidão pra governar. Esse mundo acabou quando a Revolução Francesa derrubou o rei e atacou a Igreja, porque o grupo vencedor decretou o homem sóbrio e sem adorno, numa virada que o psicólogo John Flügel batizou de Grande Renúncia Masculina. Ou seja, a masculinidade vendida como eterna tem uns dois séculos e nasceu da revolução que guilhotinou a masculinidade que ela diz honrar.  Isso vale também pra acusação de relação parassocial contra fãs de k-pop. Durante séculos, multidões fizeram fila pra tocar reis que curavam doença pelo toque, homens que nunca saberiam que aqueles súditos existiam, num vínculo unilateral mediado por cerimônia e imagem. O historiador Marc Bloch documentou esse ritual no livro Os Reis Taumaturgos, de 1924. A monarquia sacral funcionou como a maior máquina parassocial da história. Por fim, a estética do k-pop não é degeneração moderna: no século VI, os hwarang, elite guerreira do reino coreano de Silla, já apareciam nas crônicas como jovens belos e ornamentados. Homem adornado com status de elite existe na tradição coreana há 1.500 anos, as baboseiras que você fala são modernismo travestido de tradição.  Fontes: Elizabeth Semmelhack, curadora do Bata Shoe Museum, sobre a origem do salto; John Flügel sobre a Grande Renúncia Masculina; Marc Bloch sobre o toque real; Richard Rutt sobre os hwarang
Tradição inventada: quando uma prática recente se veste de antiga pra emprestar a autoridade do passado. É o caso da chamada masculinidade tradicional que as Conserva Dias de Melo Rego dizem defender. O homem de salto alto nasceu na cavalaria persa, onde travava a bota no estribo e entrou na moda europeia depois de 1599, quando o xá da Pérsia mandou embaixadores ao Ocidente. Virou símbolo de poder guerreiro, portanto quanto mais alto o salto, mais alto o homem na hierarquia. Luís XIV além dos saltos decorados com cenas de batalha e lançou a moda das perucas quando começou a perder cabelo aos 17 anos. Esse Homem com H maiusculo usava pó branco no rosto, rouge na bochecha e no lábio. Além disso, rei que chorava em público era rei virtuoso: bispos medievais como Gregório de Tours tratavam as lágrimas do soberano como prova de aptidão pra governar. Esse mundo acabou quando a Revolução Francesa derrubou o rei e atacou a Igreja, porque o grupo vencedor decretou o homem sóbrio e sem adorno, numa virada que o psicólogo John Flügel batizou de Grande Renúncia Masculina. Ou seja, a masculinidade vendida como eterna tem uns dois séculos e nasceu da revolução que guilhotinou a masculinidade que ela diz honrar. Isso vale também pra acusação de relação parassocial contra fãs de k-pop. Durante séculos, multidões fizeram fila pra tocar reis que curavam doença pelo toque, homens que nunca saberiam que aqueles súditos existiam, num vínculo unilateral mediado por cerimônia e imagem. O historiador Marc Bloch documentou esse ritual no livro Os Reis Taumaturgos, de 1924. A monarquia sacral funcionou como a maior máquina parassocial da história. Por fim, a estética do k-pop não é degeneração moderna: no século VI, os hwarang, elite guerreira do reino coreano de Silla, já apareciam nas crônicas como jovens belos e ornamentados. Homem adornado com status de elite existe na tradição coreana há 1.500 anos, as baboseiras que você fala são modernismo travestido de tradição. Fontes: Elizabeth Semmelhack, curadora do Bata Shoe Museum, sobre a origem do salto; John Flügel sobre a Grande Renúncia Masculina; Marc Bloch sobre o toque real; Richard Rutt sobre os hwarang

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