@cleusavidal51: Tenho 72 anos e todos os domingos ia almoçar a casa da minha filha. Um dia disse-me: «Pai, este domingo não venhas, temos os nossos planos». Respondi que compreendia. Mas aquele dia fez-me perguntar do que era realmente feita a minha própria vida... Tenho setenta e dois anos e durante quase oito anos fui almoçar a casa da minha filha todos os domingos. Depois de a minha mulher morrer, aquele almoço tornou-se o centro da minha semana. A minha filha Marta vive com o marido e os dois filhos a cerca de vinte minutos da minha casa, nos arredores do Porto. Eu chegava por volta da uma, normalmente com uma garrafa de vinho ou uma travessa de bolos. O meu genro cozinhava muitas vezes e eu ajudava a pôr a mesa. Depois víamos futebol ou eu jogava às cartas com o meu neto. Nunca pensei que aquilo pudesse mudar. Numa quinta-feira a Marta ligou-me. Falámos de várias coisas e, antes de desligar, disse-me: «Pai, este domingo não venhas almoçar. Temos uns planos só para nós». No domingo levantei-me às oito como sempre. Durante uns minutos até pensei em escrever à Marta a perguntar se os planos dela tinham mudado. Não o fiz. Deu-me vergonha reconhecer que um simples almoço cancelado me tinha deixado sem saber o que fazer com o dia todo. Durante anos tinha organizado esse dia à volta do almoço com eles. Ao meio-dia abri o frigorífico. Havia ovos, queijo e um tupperware de feijão congelado. A minha filha tinha o direito de passar um domingo sozinha com a família. Mas enquanto aquecia o feijão pensei em algo que me incomodou ainda mais. Não sabia a quem ligar. Tinha conhecidos, vizinhos, antigos colegas de trabalho. Mas amigos com quem pudesse dizer «vamos tomar um café?» quase não me restavam. Depois de me reformar fui deixando de ver as pessoas. Quando a minha mulher morreu, ainda mais. Os meus filhos estavam atentos a mim e eu, sem dar conta, transformei a vida deles na minha. Nessa tarde saí a caminhar. Acabei num parque onde vários homens jogavam à malha. Um deles, o Fernando, era um antigo vizinho. Reconheceu-me e perguntou se eu queria jogar. Disse-lhe que não sabia. «É por isso mesmo que se aprende». Na semana seguinte voltei ao parque. Da primeira vez fui só para ver, mas o Fernando pôs-me uma bola na mão e apresentou-me aos outros. Depois começámos a tomar café. Eu voltava para casa com pequenas histórias para contar Descobri que alguns eram viúvos, outros casados e um tinha-se divorciado há pouco. Falavam de futebol, médicos, filhos Não aconteceu nenhum milagre. Também não me tornei de repente o homem mais sociável do bairro. Mas comecei a notar que o domingo já não metia medo se a Marta tivesse outros planos. Simplesmente comecei a ter coisas para fazer que não dependiam de a minha filha estar livre. Um mês depois a Marta ligou-me num sábado. «Pai, amanhã fazemos arroz. Vem cá». Disse-lhe que já tinha combinado. Houve um silêncio do outro lado. «Combinaste alguma coisa?» Achei graça à surpresa dela. Contei-lhe que íamos a uma aldeia perto porque o Fernando conhecia um sítio A Marta ficou contente, embora ache que também ficou um pouco desconcertada. E eu tinha aceitado esse papel sem perceber o peso que podia ser para ela. Agora continuo a almoçar com eles em muitos domingos, mas não todos. Alguns domingos jogo à malha. Outros vou ao cinema. Uma vez até fiz uma excursão com um grupo do centro cultural. Não porque goste menos da minha família. Precisamente porque agora posso ir a casa deles porque quero vê-los, não porque sejam o meu único plano. Às vezes penso que, quando envelhecemos, pedimos aos filhos que não deixem de viver a vida deles por nossa causa. Mas depois, sem querer, esperamos que estejam disponíveis para preencher os nossos domingos Eu precisei que a minha filha me dissesse uma única vez «este domingo não venhas» para perceber quanto tinha reduzido o meu mundo. Hoje até acho que me fez um favor sem saber. Acham que, quando os filhos formam a sua própria família, os pais devem também aprender a construir uma vida que não dependa sempre deles?
Cleusavidal51
Region: BR
Sunday 23 August 2026 16:33:58 GMT
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Comments
Cecilia Faith :
‘ YES I THINK SO ‘😊🙏🏼
2026-08-25 21:28:22
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Deborah Cristina :
Nossa, adorei sua história, acho que serve de exemplo para todos, temos que construir nosso mundo e te Los também por perto, mas, não sermos dependentes deles....amei sua história
2026-08-23 19:18:26
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izabelsantos3053Izabel :
Esse foi o melhor alerta que li e reli e pra refletir muito e começar a se afastar devagar sem alarde sem muitas perguntas ,por isso ainda acho que qdo nos ligam e perguntarem está tudo bem??Sempre responda nossa e como está o dia cheio de coisas pra fazer embora sabemos que muitas vezes vamos ficar só em frente a TV sem nem saber o que está passando só olhando pro nada mas enfim o mundo mudou e nós temos que mudar também e está tudo certo❤️🙏
2026-08-23 21:02:19
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Marcelo Ferle :
Eu com 54 anos não posso ir à casa dos meus filhos, porque não os tenho, quando mais jovem decidi por isso, agora nem filhos e nem campo de malha, almoço de domingo é sem companhia,sem barulho e nem produção de memórias, o preço das escolhas sempre chegará um dia.
2026-08-23 22:55:06
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miriammi48 :
Viramos um tanto faz,pra quem tanto fizemos, esta é a realidade.
2026-08-23 22:24:57
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João Vergílio :
nunca gostei de ir pra casa de outros, gosto da minha. Não gosto de visitar ninguém e tbm não quero visitas, nos fins de semana, almoço nos restaurantes caseiros. Vou a sítios pagos, meu carro é um lugar de lazer. Não preciso de companhia.
2026-08-23 23:04:40
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CESARMIX 🎼🎸🪴🍻 :
Boa noite!
Gostei da história, boa reflexão, quando ficamos idoso não devemos ficar dependente totalmente da família , temos que tomar decisões, ter nossas escolhas, conversar com pessoas diferentes e confiáveis, visitar parques, ter contato com a natureza.
É óbvio, não devemos perder o contato com familiares, pois o elo familiar é insubstituível.
💞💚🫶🙏🫂
2026-08-23 22:32:01
45
Ligia Pena :
Eu aprendi a não contar com filhos após ficar viúva
2026-08-23 17:51:27
148
Rosy Reis :
CHOREI MUITO COM SUAS PALAVRAS, JA PASSEI POR ISSO, HOJE TRABALHO COM ARTEZANATO , DOMINGO,E NA SEGUNDA FEIRA TRABALHO COMO VOLUNTÁRIA HOSPITAL COM JENTE DE TERMINAS DE CÂNCER.
2026-08-25 20:54:52
6
Donizete :
a nossa vida muda quando os filhos saem de casa fica um vazio grande até o mundo não tem lugar pra gente muito ruim
2026-08-23 21:06:06
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CARLOS :
Eu tenho 74 anos de idade.
Se é verdade que teremos outra VIDAS, com poucas lembranças desta. Juro, não casarei e nem FILHOS terei.
Que desilusões!!
Só sofrimento
2026-08-23 20:49:48
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gilvideomix :
Tenho 57 anos, tenho 2 filhas e 1 filho, o caçula me deu um neto, zayan o meu tesouro, me separei a 5 anos, sem brigas, mas... hoje elas não falam comigo, minha família hoje se resume a meu filho caçula e meu neto, desejo tudo de bom pra elas, mas hoje minha família é meu filho e meu neto!❤️❤️
2026-08-23 21:04:13
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Jusaara Ferreira Lou :
nossa e pura verdade temos que caminhar sem pensar que nossos filhos vai ser nossa solução de vida ,apesar de tudo temos que dar um passo de cada vez e difícil mas tudo e um recomeço de vida.E nossa hora de se descobrir de novo e respirar fundo e ir em busca do perdido da nossas vidas e encontrar em pequenos gestos das vidas valorizar e seguir.Ser feliz
2026-08-23 21:45:43
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Diva Correia :
Eu acho que quando ,envelhecemos nos tornando um pesso pra os filhos.
Quantas vezes deixamos de fazer planos por que eles não cabiam neles ...
2026-08-23 21:11:23
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SOL🌻 :
😔💔Perdi meu filho há 3 meses, almoçamos quase todos os domingos, ele e nora, na semana tirávamos um dia para nós dois, mãe e filho (um lanchinho ou um almoço fora). Hoje sofro com essa ausência.
2026-08-23 22:38:27
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marydomicianos :
Quando vai se aproximando os 50 anos, por vezes, há filhos que começam a querer tolhir a autonomia dos pais e deixat-lhes claro que, precisarão deles na velhice como se isso fosse sentença para pais . filhos são gente, e o ser humano não é de tudo, bom. lutam também com o lobo bom e com o lobo mal que existe dentro de cada um. então é preciso que na vida adulta planejamos nossa velhice, incluindo o fato de ser-mos sós, sem nosso companheiro, e ainda assim saber como tocar a vida
2026-08-23 21:26:11
6
Lu :
Sinceramente, encontros constantes com pais e família fica parecendo pagamento de dívidas.. por mais que haja amor , a vida muda. Encontros de família precis ser mágicos , prazerosos , com vontade real e felicidade.
2026-08-23 23:24:45
7
user4691926851703 :
Que linda e verdadeira reflexão, obrigado por compartilhar com nós é pura verdade.
2026-08-23 18:40:54
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Leonardo Inacio :
Essa é a parte mais difícil , a distância dos filhos e aprender a viver com essa distância!
2026-08-23 21:02:01
67
@Paulo Rogerio :
Linda história. Fazem 9 meses que perdi minha esposa deu Alzmheir ela tinha 56 anos convivemos juntos por 34 anos tenho uma filha casada que mora em outra cidade e convivo com minha outra filha de 14 anos hoje domingo nesse momento ela está na casa de uma amiguinha mas ja começo a me preparar pra passar os domingos com meus planos mas não é FÁCIL. Que DEUS lhe ABENÇOE. 👏👏👏
2026-08-23 20:16:11
81
celis❤️ :
lindo texto ..e a realidade..não devemos viver nossas vidas .dentro da vidas dos filhos..ja fizemos nossa parte ..eles tem que fazer a vidadeles ..tenho 5 filhas maravilhosas..criei sozinha .qdo começaram a ser independentes percebi que era hora de acostumar com o futuro.. hj moro só ..trblhoe so flo com elas pir chamadas ligações.. percebi que a vida e assim mesmo...tudo tem seu tempo e qdo ele chega temos que abrir espaço...
2026-08-23 18:39:01
5
Ninha :
Eu, depois de ser casada por 34 anos, veio a separação e minha vida mudou muito, apesar de trabalhar, vivia para meu marido e filha, com a separação vim morar com minha filha, mais faço minhas coisas sozinha, aprendi a ir ao teatro, faço caminhadas, viajo, musculação,pilates. Tento ocupar meu tempo para não me permitir ficar triste e depressiva, não é fácil! Mas minha filha tem a vida, marido, filhos e eles já demandam muito tempo dela. Procuro não ser um peso e nem preocupa-la.
2026-08-23 18:35:41
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Fabiana Lima :
Aprendi a não esperar nada dos meus filhos, muito menos ser um peso ou uma obrigação. Só peço a Deus que arrume uma boa esposa, que se cuidem e as cuidem também, sejam felizes e isso já me basta. Aprendi a ser sozinha e me sinto bem assim.
2026-08-23 23:36:34
6
Alice Pereira de Sou :
essa história é uma verdade absoluta, gostei!
2026-08-23 19:31:35
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