NS :
Comentários desnecessarios, dito por alguém que tem visibilidade pública e influência sobre milhares de pessoas.
Não há problema nenhum em apresentar um resort de luxo, nem em dizer que determinado espaço tem um público-alvo específico, um determinado preço ou um nível de exclusividade. O problema está na forma como isso é dito.
Dizer a pessoas, nomeadamente polícias, militares ou trabalhadores com rendimentos mais baixos, que “este espaço não é para vocês” ultrapassa a simples apresentação de um lugar exclusivo. É uma mensagem de segregação social e de desvalorização de quem, por alguma razão, não tem o mesmo poder económico.
Vivemos numa sociedade onde a diferença entre quem tem muito e quem tem pouco é cada vez mais visível. E, infelizmente, também assistimos ao crescimento da criminalidade, de jovens que escolhem o caminho dos “gatunos”, de pessoas que entram em esquemas e práticas ilícitas e, no caso de algumas mulheres e homens, até numa espécie de prostituição por necessidade ou pelo desejo de alcançar rapidamente um determinado padrão de vida.
Será que não devemos também pensar no papel que este tipo de discurso desempenha?
Quando alguém com estatuto, fama e exposição pública transmite constantemente a ideia de que o valor de uma pessoa está no dinheiro que tem, no carro que conduz, no lugar onde consegue entrar ou no círculo social a que pertence, estamos, mesmo que involuntariamente, a alimentar uma sociedade cada vez mais obcecada com o status.
E depois perguntamo-nos por que razão tantos jovens querem ter “aquela vida” a qualquer preço.
Quem comunica para milhares de pessoas tem uma responsabilidade acrescida. É possível falar de exclusividade sem humilhar. É possível apresentar luxo sem criar a sensação de que quem não pode pagar é inferior. E é possível dizer “este espaço é direcionado a determinado público” sem transformar profissões honestas ou rendimentos mais modestos numa razão para alguém se sentir excluído.
Não se trata de impedir ninguém de vender luxo. Trata-se de ter consciência daquilo que as nossas palavras podem incentivar. Porque, numa sociedade já tão marcada pela desigualdade, talvez devêssemos ter mais cuidado com as mensagens
2026-08-30 09:04:07