@adilson.bellizzot: NO VELÓRIO DE “PEDRO NINGUÉM” HAVIA UM PASSARINHO. Dirijo meu carro numa rodovia de pista estreita cheia de curvas. Atendendo ao pedido do Poeta, assim vou chamá-lo, devo examinar uma mulher sua amiga com grave depressão. Saí de casa meio insatisfeito. Sábado à tarde! O verde em volta da rodovia melhora meu humor. E se com o Poeta nunca consegui boa sintonia, com seu pai a relação fluiu leve, solta, agradável. Sujeito afabilíssimo. Dizia ele, com razão, sobre as pessoas: “Quem fica rodeando o caixão não o carrega”. Atendi sua esposa, mãe do Poeta, quando no final da vida apresentou depressão. Dois anos após enterrar a esposa, chegou a vez dele. Um homem pobre em bens materiais e rico em qualidades humanas. Seu velório foi muito triste, como costuma ser o velório de um viúvo. Compareceram poucas pessoas. Um poema lá declamado me marcou profundamente. Nenhum cenário seria mais perfeito para a declamação do que aquela casa humilde e aqueles poucos e requietos amigos. As coxilhas que vejo da estrada são como bolhas tênues. Algumas vacas pascem calmamente realçadas pela forte luz solar. Dou-me conta de que nossa paisagem lembra em muito a do interior da Inglaterra. Sem forçar a imaginação posso me sentir como naquela tarde em que fui de Londres a Oxford. Contra minha vontade devolvo o olhar ao asfalto. O trânsito é lento, porém constante. Num curto período atendi o próprio Poeta sem nada cobrar. Não só porque ele nunca teve dinheiro, mas, principalmente, pela amizade e admiração que mantive por seu pai. Atendi como pude porque o Poeta é daquelas pessoas que a ninguém escuta. Reconheço que é inteligente, que se expressa bem e que, com trinta e poucos anos, já é bastante vivido. E conhece muitas poesias e muitos poemas. Quem comparece a velório em casa pobre, de gente educada, honesta, trabalhadora, carinhosa, culta, mas que, por estes azares da vida, nada tem, experimenta o que é o sentir sincero. Não há disputa por bens materiais, não os há. Há, sim, o compartilhar da tristeza pela ausência de quem se espera sempre presente. O poema de Luiz Menezes, tão bem declamada naquele triste dia, poderia ter sido composto lá. Deveria, sim, deveria ter sido composto lá: “O homem que nasce pobre é como cavalo xucro... É pealado pela vida, sofre a doma das tristezas até que um dia se amansa, perde a vontade e a fé... Depois, já sem serventia, morre à beira do alambrado, esquecido... sem ninguém!” Éramos em poucos no velório do pai do Poeta. A começar que os amigos de meu amigo eram trabalhadores, não podiam ausentar-se do emprego: “Chorar é pra quem tem tempo, e o tempo pra pobre é escasso...”. Quando cheguei na cidade em que estava a amiga depressiva do Poeta já me sentia disposto, em condições de bem atendê-la. Com certeza devido a lembrança crescente de seu pai, um inesquecível amigo de grandes qualidades humanas. Mas e o Poeta? Bem, o Poeta também merecia de mim admiração: foi ele quem com sincera emoção declamou no velório o poema “A morte de Pedro Ninguém” de Luiz Menezes. Ah! Quase esqueço de contar: no velório havia um passarinho pousado na janela. Ficou lá por muito tempo. Abraço, J. A. Salton
Adilson Bellizzotti
Region: BR
Sunday 20 September 2026 13:24:09 GMT
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