Fabio Morel Morel :
A coroação de Anitta não representou apenas um deleite aos nossos olhos, levando a beleza e a estética ao seu máximo. Ela representou uma ruptura, sobretudo, com as coroação que veio anteriormente. Foi um resgate ao território profano/sagrado da Escola de Samba, tudo ao mesmo tempo, sem contradição ou negação daquilo que o samba é feito.
Ali, a ancestralidade, a territorialidade e a reverência a quem veio antes ocuparam o centro da cena. Tudo começa com Exu, senhor dos caminhos, abrindo passagem. O vermelho predominante remete às cores quentes do dendê. Anitta surge vestida de pomba-gira e recebe a coroa das mãos de uma mulher travesti, também vestida de pomba-gira.
Tudo ali foi marcado por estética e representatividade. Mas, sobretudo, pelo valor da terra, do chão, do terreiro, do samba e da comunidade. Uma representatividade que não se encerra no indivíduo, mas se reconhece na história coletiva que o sustenta.
E talvez esteja aí a maior ruptura: naquele momento, vimos mais a Larissa do que a Anitta. Vimos a pessoa antes da personagem, a ancestralidade antes da celebridade, o território antes do espetáculo. Uma ruptura que é estética, simbólica e, inclusive, existencial.
2026-09-21 15:08:58