João_cawboy :
meu pai estudava na UnB nessa época, durante o ataque de 29 de agosto ele e um colega estavam acompanhando um professor que pediu que eles fizessem parte de um grupo de pesquisa, nesse momento os militares cercaram o campus e começaram a invadir os prédios e as salas de aula com todo tipo de arma. Meu pai foi atingido por uma bomba de gás lacrimogêneo e espancado, só não teve complicações maiores porque o professor conseguiu intervir dizendo que meu pai não era envolvido com nenhum movimento estudantil; o colega dele, depois de espancado até a inconsciência, foi preso por ter envolvimento com a FEUB; o melhor amigo do meu pai, hoje meu tio, foi encurralado na quadra de basquete junto com centenas de outros estudantes, onde os militares os arrastavam pelos cabelos, ameaçavam com armas de fogo e batiam sem interrupção nos alunos, após isso meu tio perdeu sete dentes da boca, várias costelas fraturadas, úmero e tíbia completamente triturados, inclusive ele manca por isso até hoje. Honestino Guimarães, líder da FEUB, foi espancado, preso e torturado, anos depois foi desaparecido pelo regime.
Negar atrocidades como essa só confirma a lavagem mental bem sucedida imposta pelo governo durante e após a ditadura. Como estamos na geração da exceção, em que as pessoas justificam algo com exemplos próximos e não olham pro cenário geral, é preciso dizer que não é porque seu avô, sua avó ou seus pais não sentiram os efeitos da ditadura na pele que ela não existiu, isso significa simplesmente que eles se estagnaram na luta pela liberdade, significa que foram levados a acreditar que o regime era algo bom pela propaganda incessante a alienante do Governo, significa que você teve sorte por não ter um trauma arraigado na sua família e nas pessoas que você ama, mas não significa que não houve quem foi brutalizado pela política, não significa que um período de 21 anos e todas as histórias vividas nele não tenham existido.
2026-09-30 17:53:29