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armando_priv012
Armando_priv@012 :
Vai piautu
2026-10-30 20:21:22
1
alex_axv.21_
🐟AXV🐟 :
buna
2026-10-30 16:45:31
0
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Flávio Bolsonaro disse em vídeo, publicado durante o primeiro debate presidencial da Band, que queria debater com quem não acredita em Deus, porque, quando for presidente, um dos seus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo. Antes disso, em 4 de junho, na 34ª Marcha para Jesus, já tinha decretado a guerra espiritual. Em 24 de setembro, depois de o boato da padroeira viralizar, a GloboNews publicou errata. Os jornalistas provavelmente foram levados ao erro por um projeto antigo que rebaixava Aparecida, o PL 2623/2007, de Victório Galli, arquivado em 2008. Talvez tenham confundido também o verbo, pois decretar é declaração de fé: decreta-se a vitória. Na frase de Flávio, a fórmula aparece sem rito de decreto executivo ou de medida provisória. Se virasse ato de Estado, esbarraria no artigo 19, inciso I, da Constituição, que veda à União aliança com cultos. Já a guerra espiritual tem origem conhecida: a teologia do domínio, nascida nos Estados Unidos, cujas duas vertentes querem conquistar domínio social e político para erguer uma civilização cristã. Na vertente reformada, o teonomismo reconstrucionista quer aplicar a lei do Antigo Testamento. Já a pentecostal, a dos sete montes, foi lançada em 1975 por Bill Bright e Loren Cunningham, fundadores da Cruzada Estudantil e da Jocum: nela, família, religião, educação, mídia, artes, negócios e governo são esferas a dominar, com batalhas espirituais contra os poderes que as governam. Peter Wagner, organizador da Nova Reforma Apostólica, cunhou a expressão
Flávio Bolsonaro disse em vídeo, publicado durante o primeiro debate presidencial da Band, que queria debater com quem não acredita em Deus, porque, quando for presidente, um dos seus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo. Antes disso, em 4 de junho, na 34ª Marcha para Jesus, já tinha decretado a guerra espiritual. Em 24 de setembro, depois de o boato da padroeira viralizar, a GloboNews publicou errata. Os jornalistas provavelmente foram levados ao erro por um projeto antigo que rebaixava Aparecida, o PL 2623/2007, de Victório Galli, arquivado em 2008. Talvez tenham confundido também o verbo, pois decretar é declaração de fé: decreta-se a vitória. Na frase de Flávio, a fórmula aparece sem rito de decreto executivo ou de medida provisória. Se virasse ato de Estado, esbarraria no artigo 19, inciso I, da Constituição, que veda à União aliança com cultos. Já a guerra espiritual tem origem conhecida: a teologia do domínio, nascida nos Estados Unidos, cujas duas vertentes querem conquistar domínio social e político para erguer uma civilização cristã. Na vertente reformada, o teonomismo reconstrucionista quer aplicar a lei do Antigo Testamento. Já a pentecostal, a dos sete montes, foi lançada em 1975 por Bill Bright e Loren Cunningham, fundadores da Cruzada Estudantil e da Jocum: nela, família, religião, educação, mídia, artes, negócios e governo são esferas a dominar, com batalhas espirituais contra os poderes que as governam. Peter Wagner, organizador da Nova Reforma Apostólica, cunhou a expressão "batalha espiritual em nível estratégico". Telles e Oliveira mostram a chegada dessa doutrina ao Brasil com a expansão neopentecostal; um estudo de 2023 na revista Projeto História a usa como chave da relação entre evangélicos e bolsonarismo. Nem todo pentecostalismo brasileiro, contudo, vem dessa matriz. Fundada em Belém em 1911 por Daniel Berg e Gunnar Vingren, operários suecos, a Assembleia de Deus cresceu entre gente pobre, preta e nordestina. Se a guerra espiritual é importada, guerra em nome de Deus a América Latina viveu de fato, na conquista. Dela parte a leitura de Ivone Gebara e Maria Clara Bingemer: derrotados, os povos originários viram seus deuses assumirem a forma das figuras do conquistador, de modo que o céu voltou a escutá-los; a assimilação religiosa virou, assim, arma para reafirmar o próprio valor. Elas mesmas ressalvam que o processo não foi consciente e que muitas devoções vieram de cima, trazidas por congregações europeias entre o século XVIII e o início do XX. Por isso vale olhar caso a caso. Em Copacabana, a devoção nasceu numa das metades da aldeia; a outra recusou a imagem até a entronização, em 1583. No Rio, uma igreja dessa Virgem, erguida em 1746 provavelmente por comerciantes da prata andina, ficou no rochedo do Forte até 1914. Em Caacupé, por sua vez, conta a tradição que o escultor fugia de guerreiros mbayás, escondido atrás de um tronco, quando prometeu esculpir a Virgem naquela madeira. Na Costa Rica, a imagem achada numa pedra em 1635 voltava sempre ao mesmo lugar, até erguerem ali o templo. Em Cuba, ao contrário, documentos publicados em 1922 indicam que a imagem veio da Espanha pelas mãos do administrador das minas. Luján reúne os dois movimentos: chegou pela rede de contrabando e tráfico de escravizados de Buenos Aires, junto com Manoel, que provavelmente era iorubá e foi vendido em Cabo Verde. Trazida pelo tráfico, a santa ganhou a devoção de quem viajou com ela como carga. Se nessas devoções a fé passou de quem mandava para quem obedecia, a promessa de Flávio faz o caminho inverso, devolvendo a fé a quem governa. Jesus, porém, separou César de Deus. Se um dia a espada foi de César, hoje a espada de César é a caneta do presidente. Fontes: Gebara et al., 1987, Maria, Mãe de Deus e Mãe dos Pobres; Vargas Ugarte, 1947, Historia del culto de María; Novais et al., 2021, Teologias do domínio; Vilardaga, 2015, imagens paulistas de Luján e Sumampa.

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